domingo, 10 de outubro de 2010

Bullying

 


 Não pode. E pronto!
Submeter um colega a humilhações, piadas e outras agressões sistemáticas é praticar bullying. Não é brincadeira. É violência. Causa sofrimento e dano à vítima. Escolas, pais e sociedade devem combatê-la.

A médica psiquiatra do Ambulatório de Neuropsiquiatria Infantil e professora do curso de extensão em Saúde Mental Escolar da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Giulietta Cucchiaro, diz que a expressão bullying vem do verbo inglês to bully, que significa usar a força ou o poder para assustar, intimidar ou ameaçar aquele que é mais fraco. “O bullying é definido como o uso deliberado de meios físicos e psicológicos para ferir ou amedrontar o outro sem o devido pretexto e sabendo que ele não é capaz de se defender”, explica.
Segundo a coordenadora Associada do curso de Pedagogia da Unicamp, Ângela Soligo, bullying envolve um conjunto de práticas de discriminação e preconceito em que são ressaltadas características desvalorizadas por um grupo. Ela afirma que a prática passa pela verbalização, com piadas e apelidos de mau gosto, inclui o isolamento e pode chegar à violência física.

As especialistas afirmam que o bullying sempre esteve presente no ambiente escolar. “Sempre houve um excluído, um rotulado, dono dos apelidos, mas havia um certo controle sobre as expressões mais violentas, porque os castigos também eram mais severos. A violência ocorria mais fora da escola do que dentro dela”, diz Ângela.

Para ela, a ocorrência de bullying também se intensificou por causa da violência presente no cotidiano dos jovens. “Os modelos que as crianças e os adolescentes têm hoje são violentos. E a violência não está somente nos filmes e nos desenhos. Está também na realidade que é mostrada todos os dias pelos jornais e pela TV”, analisa.

Mal presente na sala de aula

Entre a 5ª e a 8ª série do Ensino Fundamental, a jovem Silvana era o centro das atenções em sua classe na escola particular em que estudava em Campinas. Não por seu desempenho brilhante nas disciplinas escolares – ela tirava as melhores notas da turma, mas por ser um pouco mais baixa que a média entre seus colegas. Diariamente, Silvana (nome fictício para preservar sua identidade) tinha que suportar apelidos grosseiros e músicas irônicas, cantadas em coro em plena sala de aula. “Me sentia humilhada”, lembra.

A garota, que hoje tem 19 anos, passou quatro anos de sua adolescência sendo alvo de bullying. O termo é importado do inglês e ainda pouco conhecido no Brasil, mas já começa a fazer parte do vocabulário de muitas crianças e jovens que vivenciam o problema no dia-a-dia

O bullying está presente em muitas escolas, tanto da rede pública quanto da rede privada, causando sofrimento a crianças de várias idades. A universitária Silvana, que sofreu com a prática durante grande parte do Ensino Fundamental, estudava em escola particular.

Já o estudante Luís Henrique Faustino, 18 anos, era aluno de uma escola pública, quando foi vítima de bullying entre a 5ª e a 7ª série do Ensino Fundamental. Ele ainda se lembra bem dos dois garotos de sua classe que o ofendiam com palavras e o agrediam fisicamente. “Um deles me bateu. Eu recebia chutes e cheguei a ser derrubado”, conta.

Apesar de terem a mesma idade que Luís Henrique na época, os agressores eram bem maiores que ele. Sua mãe, a comerciária Amelinda Faustino, diz que o filho sempre foi franzino e muito tímido. “Eu não tinha como enfrentar, porque ficava desfavorecido”, diz o jovem.

Segundo Amelinda, no início, as agressões contra o garoto tinham como alvo seu material escolar, que era violado e rasgado pelos colegas. “À medida que foram crescendo, a violência passou de psicológica a física”, relata.

A menina Kauane Paola Moreira Dias, 6 anos, já sofre com situações de bullying na creche. Sua mãe, Eliana Aparecida Moreira, conta que a menina foi empurrada várias vezes e recebeu beliscões de uma criança que também freqüenta a creche. “Ensinei minha filha a ser amiga e a não bater, então ela nunca reage. Digo a ela para procurar um adulto nessas situações”, afirma Eliana.

Tímida, Kauane revela que também não gosta quando os coleguinhas a chamam de apelidos por causa de seu nome. E ela já percebeu que não adianta reclamar. “Se eu falar que não gosto, eles chamam de novo”, diz.

Por este mesmo motivo, a estratégia adotada pelo garoto C.E.S., 18 anos, vítima de bullying no Ensino Fundamental, era ignorar as provocações dos colegas. “Eu fingia que não era comigo, porque se respondesse ou me mostrasse ofendido, eles passariam a falar mais”, diz.

Ruivo e obeso na época, C.E.S. recebia apelidos que se referiam à obesidade e esporadicamente à cor dos cabelos. “Os maiores faziam isso para zoar e ver se eu ficava nervoso, mas como dizia que não me importava, então não tinha graça para eles”. Entretanto, o garoto reconhece que, no fundo, as provocações dos colegas o deixavam bastante chateado.

Bons e maus alunos praticam bullying

A psiquiatra Giulietta Cucchiaro ressalta que a escola tem grande importância para o desenvolvimento das crianças. “É no ambiente escolar que os alunos vivenciam relacionamentos, que incluem cooperação, amizade e amor, assim como a competição, a inimizade e aprendem a lidar com a autoridade”, ressalta.

Para ela, é imprescindível que o aluno tenha garantido seu direito de se sentir seguro e de ser respeitado no ambiente escolar. E o bullying vai na contramão deste direito. “Estudos científicos mostram que 15% das crianças podem estar envolvidas como autoras ou vítimas da prática”, observa.

Giulietta informa que o bullying é classificado em direto e indireto. O direto caracteriza-se por ataques físicos, como empurrões e brigas. “O agressor, geralmente um menino, tem características de líder e não raro recruta dois ou três ajudantes”, detalha.

Já o tipo indireto, inclui estratégias para prejudicar a autoconfiança do outro, por meio de humilhações, isolamento social e rumores agressivos. Este é o tipo mais praticado pelas meninas.

Segundo a psiquiatra, em 40% dos casos os agressores têm problemas psicológicos. “Geralmente, eles vêm de lares caóticos, com educação autoritária e agressiva e disciplina inconsistente”, afirma.

De acordo com a coordenadora Associada do curso de Pedagogia da Unicamp, Ângela Soligo, as práticas de exclusão do bullying são manifestadas também por bons alunos. “Não são apenas os indisciplinados que fazem isso”, comenta. Ela ressalta que o isolamento é um dos tipos de agressão mais freqüentes. “Faz parte do cotidiano de todas as escolas”.

Ângela relata que as principais vítimas de bullying são os negros, os portadores de deficiências físicas, as crianças obesas, os tipos mais afeminados ou masculinizados, assim como as crianças muito pobres.

A vítima de bullying, segundo Giulietta Cucchiaro, é geralmente uma criança tímida, ansiosa, com dificuldade para fazer amizades e pode carregar algum estigma. Geralmente, vem de família na qual não há violência e mantém um relacionamento próximo com os pais. “São pessoas que não sabem lidar com a violência”, acrescenta.

Por trás da agressão está o preconceito

A atuação da escola e o apoio dos pais são essenciais no combate ao bullying. Para a psiquiatra Giulietta Cucchiaro, assim que o problema for identificado a escola deve conversar individualmente com a vítima e o agressor. “Ambos podem necessitar de ajuda psicológica”, diz. Os pais também devem participar do processo junto com a escola. “E deve-se deixar claro que o bullying não é permitido no espaço escolar”, enfatiza.

Para Ângela Soligo, o papel das instituições de ensino no combate à prática vai além. Ela diz que é preciso discutir com toda a comunidade da escola, questões como o preconceito e a exclusão no ambiente escolar. “As escolas acabam indo pelo caminho de identificar as crianças mais agressivas e rebeldes e conter o problema. Isso é tapar o sol com a peneira, porque não trata da questão fundamental, que é o preconceito”, avalia.

Giulietta destaca um projeto realizado na Noruega pelo psicólogo Dan Olweus. Após a realização de um levantamento que constatou que o bullying era um problema sério tanto em pequenos vilarejos quanto nas grandes cidades norueguesas, ele lançou o Programa Nacional Anti-bullying. Por meio da conscientização de alunos, professores e funcionários das escolas, as ocorrências caíram em mais de 50%.

Em Campinas, a Secretaria Municipal de Educação tem como um de seus eixos principais a inclusão irrestrita. A meta é incluir os portadores de necessidades especiais, os negros e os alunos egressos da Febem nas escolas da rede municipal de ensino. “Temos trabalhado com os alunos para minimizar as diferenças e, paralelamente, procuramos desenvolver a cultura da paz, da não-agressão e da não-violência”, diz a psicóloga e pedagoga Rita Khater, assessora de Educação e Cidadania da Secretaria Municipal de Educação.

Rita relata que com a experiência da inclusão radical já é possível perceber nos pátios das escolas atitudes mais inclusivas. “Há um olhar cada vez mais crescente de inclusão nas nossas escolas”, afirma.

Quando o jeito é mudar de escola

A solução para o problema de alguns casos mais graves de bullying pode estar na mudança de escola. Foi o que aconteceu com Luís Henrique Faustino, no 1º ano do Ensino Médio. Depois de ter passado a 8ª série em um turno diferente de seus agressores, eles iriam voltar a dividir a sala se a família não tivesse optado por uma outra escola.

“Decidi mudar meu filho de escola quando ouvi a direção dizer que ele precisava aprender a se defender sozinho. Se ele não saísse de lá seria uma vítima grave ou se tornaria um marginal igual aos outros”, analisa a mãe Amelinda Faustino. Para ela, a escola foi omissa durante todo o período em que Luís Henrique foi vítima de bullying.

Tentando resolver a situação da melhor forma possível, Amelinda diz que conversou várias vezes com a direção e passou a fazer parte da Associação de Pais e Mestres e do conselho da escola. Entretanto, segundo ela, todos ignoravam o problema, que também ocorria com outras crianças da mesma instituição de ensino.

“Em muitos casos, a escola nega a importância e a gravidade de um problema denunciado. E, às vezes, até se posiciona ao lado do agressor”, afirma a psiquiatra Giulietta Cucchiaro. Por isso, ela enfatiza que é essencial que professores, alunos e funcionários da escola dêem a devida atenção aos casos de bullying.

Ao contrário de Luís Henrique, que sempre dividiu seu problema com a família, a universitária Silvana guardou as humilhações para si. “Nunca contei para meus pais, porque não queria dar trabalho para eles”, explica. Assim como ela, muitas vítimas sentem-se incapazes de denunciar o problema, mesmo que seja para os pais.

Muito tímida e quieta, ela suportou calada, durante quatro anos, as mais diversas agressões psicológicas, dentre as quais o isolamento e a hostilidade dos colegas. A música agressiva que era cantada para ela na sala de aula na frente de um de seus professores ainda não se apagou da sua memória. “Até hoje, tenho mágoa da escola e das pessoas. Se cruzo com alguém da época faço questão de não cumprimentar”, revela.

Silvana também só encontrou a paz quando mudou para um colégio maior, no 1º ano do Ensino Médio. “Foi ótimo. Era uma escola enorme, parecida com uma universidade, e tinha todo tipo de gente. Lá me tornei uma anônima”, comemora. Para Silvana, o bullying prejudica muito a auto-estima das pessoas, deixando as vítimas inseguras e ainda mais retraídas.

A vítima geralmente...

Apresenta resistência ou recusa-se a ir à escola.

Tem queixas psicossomáticas. Exemplo: na hora de ir à escola, passa mal.

Tem queda no rendimento escolar.

Demonstra entristecimento.

Apresenta problemas de insônia.

Chega em casa com marcas de violência física ou chorando.

Apresenta isolamento social.

Dá sinais de perda de auto-estima e de depressão.

Tenta o suicídio (casos extremos).

Fonte: especialistas entrevistadas.


É papel da escola...

Adotar uma diretriz clara e contrária à prática de bullying.

Conscientizar professores e funcionários sobre a importância de se combater do problema.

Observar as crianças nas salas de aulas, nos intervalos e no recreio.

Supervisionar lugares isolados da escola.

Detectar atividade suspeita e intervir imediatamente de forma assertiva.

Observar, preventivamente, os alunos mais vulneráveis: tanto os “valentões” quanto os mais tímidos.

Não fazer vista grossa às denúncias. Entrevistar individualmente os envolvidos e, se necessário, chamar os pais.

Orientar os alunos a tentar ajudar outras crianças que estejam sofrendo com situação de bullying.

Reforçar, sempre que possível, que é importante incluir e acolher os colegas mais tímidos, que facilmente se isolam.

Fonte: Giulietta Cucchiaro, psiquiatra.
Revista Metropole
Renata Freitas
(tema sugerido pela profª Eleny)

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